A CONSCIENTIZAÇÃO SOBRE O AUTISMO: NOVOS RUMOS
O Dia Mundial do Autismo completou sua segunda edição no último dia 2 de Abril. A data criada pela Resolução 62/139 da Assembléia Geral das Nações Unidas visa a conscientização da sociedade quanto a necessidade de diagnóstico precoce, pesquisas e intervenções apropriadas.
Os estudos atuais sobre Autismo (Autistic Spectrum Disorder) trazem novas perspectivas de tratamento e, quem sabe, até mesmo de prevenção. Recentemente, pesquisadores do Albert Einstein College of Medicine em Nova Iorque propuseram uma nova teoria pela qual o Autismo seria um distúrbio do desenvolvimento causado por uma disfunção do locus ceruleus (LC) , uma região do cérebro que processa informações sensitivas de todas as áreas do corpo. A nova teoria tem origem nas observações que crianças autistas parecem melhorar do comportamento quando apresentam febre, retornando aos comportamentos anteriores quando a febre cessa. O locus ceruleus produz a maior parte do neurotransmissor noradrenalina no cérebro , substância que está envolvida em vários comportamentos, entre os quais a capacidade de manter a atenção. O LC também é o único sistema cerebral capaz de atuar tanto sobre a febre como sobre o comportamento. Os autores de estudo especulam que, no Autismo, a produção desse neurotransmissor no LC fica desregulado pela interação com fatores ambientais, genéticos e epigenéticos (substâncias químicas tanto dentro como fora do genoma que regulam a expressão dos genes). Eles acreditam também que o estresse desempenhe papel importante no mal funcionamento desse delicado sistema, principalmente durante a vida fetal, quando o cérebro é mais vulnerável. Como evidência os autores citam um estudo publicado em 2008 que encontrou uma incidência maior de crianças autistas em mães expostas a tempestades tropicais e furacões. A idéia de um sistema desregulado abre a possibilidade de uma intervenção que facilite o bom funcionamento dessa complexa área cerebral, fato que não seria possível se houvesse uma lesão estrutural permanante no cérebro dessas crianças.
Os autores alertam que não se justifica provocar febre para tratar o Autismo, já que os riscos seriam muito grandes. Também informam que a mensagem é de esperança mas também de cautela pois não se pode esperar que uma condição que foge ao nosso entendimento após 50 anos de estudos seja resolvida com uma nova terapia ou medicamento. Segundo esses estudiosos o melhor entendimento da neurobiologia, genética e epigenética do Autismo pode levar ao desenvolvimento de tratamentos específicos para a modulação desse sistemas químicos cerebrais.
Cientistas da Faculdade de Medicina da Universidade de Yale também publicaram recentemente, na respeitada revista científica Nature, uma pesquisa que sugere que intervenções terapêuticas precoces podem maximizar resultados mais positivos no tratamento de crianças autistas. Como somos completamente dependente de outros seres humanos ao nascimento, possuímos uma predisposição muito precoce para prestar atenção a movimentos no ambiente que são associados a ações e gestos humanos. Os autores verificaram que crianças autistas de 2 anos de idade não demonstram esse tipo de atenção seletiva aos movimentos humanos, demonstrando focar a atenção para outros tipos de “pistas ambientais”: movimentos que apresentem sincronia com sons. As crianças autistas avaliadas eram sensíveis a informações não-sociais, ou seja, sincronismos entre sons e movimentos no que elas observavam, ao invés de dirigir a atenção para movimentos humanos. Os pesquisadores sugerem que, em uma fase muito precoce da vida, as crianças autistas procuram experiências no mundo físico ao invés do mundo social, o que pode influenciar dramaticamente o desenvolvimento da mente social e do cérebro. Já que esses mecanismos surgem nos primeiros dias de vida, é possível que técnicas e avalições específicas venham a identificar sinais precoces de vulnerabilidade ao autismo, permitindo assim a adoção de estratégias de intervenção adequadas que maximizem os resultados positivos. Além dessas novas perspectivas, devemos ter nossas mentes também direcionadas para a prevenção, tendo em vista as possíveis relações enter vários tipos de exposição a toxinas ambientais e a ocorrência de Autismo. Vários profissionais estão agora considerando a existência de “gatilhos ambientais” que podem desencadear o Austismo. Estudos recentes demosntram que indivíduos autistas apresentam nívies comparativamente mais elevados de diversas toxinas e possuem tendência a uma capacidade de detoxificação mais reduzida . A frequência de Autismo também parece ser mais elevada em áreas de maior poluição. Uma pesquisa conduzida no Departamento de Psicologia da University of Northern Iowa, nos E.U.A, constatou que a incidência de Autismo no Estado de Iowa é maior em escolas localizadas próximas a locais contaminados, os chamados EPA Superfund Sites. Esses locais são áreas de contaminação de vários aspectos ambientais como sedimentos, água, solo e ar e fazem parte de uma projeto de renovação elaborado pela Agência de Proteção do Meio Ambiente dos E.U.A. A autora especula que indivíduos geneticamente predispostos estejam sendo expostos a “gatilhos ambientais” em taxas mais elevadas do que as gerações anteriores. Mais um motivo para nos preocuparmos com a saúde do meio ambiente, reduzindo a quantidade de substâncias químicas nocivas que são lançadas na natureza. A preservação da saúde de nossas crianças também depende da saúde do Planeta.
Fontes:
1.Autism, fever, epigenetics and the locus coeruleus,
Brain Research Reviews Vol 59, issue 2 , March 2009, Pages 388-399
2. Two-year-olds with autism orient to non-social contingencies rather than biological motion,
Nature advance online publication 29 March 2009 | doi:10.1038/nature07868
3.
Neurotoxicology, no prelo